Epopéia
Poema sobre assunto heróico. A epopéia é uma das grandes formas de poesia. É a “narração moral e poética de uma ação heróica ou narração de aventuras heróicas, interessante e verossímil, servida por ficções maravilhosas e por um estilo elevado”.
A epopéia é uma “narrativa” e por isso se distingue da poesia lírica, que é, sobretudo, um “canto”, assim como do drama, que tem por essência a “ação”. Também não se confunde com a história, que tem por objeto o “verdadeiro”, enquanto que a epopéia se contenta com a “ficção verossímil”. Muitos povos antigos possuíram epopéias: os sumerianos, o Poema de Gigalmesh, (o Hércules mesopotâmico), os gregos, a níada e Odisséia, sobre a guerra de Tróia (Ilion) e as peregrinações de Ulisses (Odisseu); os indianos, o Mahabharata e o Rahmayana; os anglo-saxões, o Beowulf; os escandinavos, os Poemas de Edda; os finlandeses, o Kalewala, todas de fundo mitológico; os germânicos, as Ansias dos Nibelungen; os franceses, a Canção de Roland, sobre as lutas de Carlos Magno e seu lugar-tenente Roland, em Roncesvalles; os espanhóis, o Cantar del Mio Cid, sobre as aventuras de Ruy Rodrigo Díaz de Bivar, Cid Campeador; os russos, o Príncipe Ígor, sobre a vida deste príncipe de Kiev, estas já com fundo histórico.
Numa segunda fase, visando fortalecer a consciência nacional, temos o Shah Nameh, persa, de Firdusi; Eneida, de Virgílio, latina, sobre a epopéia de Enéias, fugindo da destruição de Tróia e se estabelecendo na Itália; após a Idade Média, onde existiu como romance em verso , retornou com a Renascença, em moldes clássicos: Os Lusíada, em Portugal, de Camões, sobre a viagem de Vasco da Gama às Índias; Jerusalém Libertada, de Torquato Tasso, na Itália, sobre a cruzada de Godofredo de Boullion; La Araueana, de Ercilla y Zuftiga, na Espanha, sobre a conquista do Chile por Valdívia. Na Inglaterra, Milton escreveu o Paraíso Perdido, epopéia de fundo cristão.
Existe ainda a epopéia herói-cômica, ridicularizando os acontecimentos heróicos, tratando temas ridículos ou mesquinhos em tom elevado: a mais antiga no gênero é a Batracomiomaquia (Luta dos Sapos Contra os Ratos), anônimo, do século V a.C., parodiando Homero.
No Brasil, o primeiro poeta que tentou a epopéia foi Bento Teixeira Pinto (século XVI): escreveu a Prosopopéia, longo poema semeado de maus versos e de evidentes imitações do poema camoneano. Segue-se-lhe Claudio Manoel da Costa, do grupo mineiro, autor da Villa Rica, título de si já bem pouco poético e cujos versos quase nada valem. “Epopéias de verdadeiro valor e mesmo as únicas verdadeiras epopéias do nosso país só aparecem nos fins do século XVIII, com o Uruguai de José Basílio da Gama e o Caramuru de Santa Rita Durão. No ano de 1819 o frade São Carlos publica outro poema épico, a Assunção da Santíssima Virgem, livro piedoso, mas de reduzidíssimo valor poético. Ladislau Titara escreve depois a Paraguaçu e Teixeira e Sousa a Independência do Brasil, em 12 cantos (1847-1855). A Norberto Silva deve-se o Brasil e vários poemetos épicos. Os dois principais autores do nosso romantismo, Porto Alegre e Magalhães, cada um fez o seu poema, saindo da pena daquele o Colombo e da deste a Confederação dos Tamoios (1857), que, como bem diz José Veríssimo, mais parece o título de uma monografia histórica que de uma epopéia. Gonçalves Dias também não quis deixar de tentar essa forma da poesia e deixou-nos o notável fragmento dos Timbiras. José de Alencar também deixou incompletos os Filhos de Tupã. Mas a tradição da epopéia nas letras brasileiras vem até aos nossos dias. Fagundes Varela dá-nos o Evangelho nas Selvas, monótonos e fatigantes, apesar da mestria incomparável do verso e Alfonsus de Guimaraens Septenário das Dores da Virgem Santíssima, feito em sonetos simbolistas de versos de quatorze sílabas. Mas do naufrágio geral a que está condenada a poesia épica brasileira apenas dois únicos poemas se salvam: o Caramuru de Durão e o Uruguai de Basílio da Gama”.
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